segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

TESTEMUNHO DO FREI RANIERO CANTALAMESSA

O batismo no Espírito Santo
Mas acaso o batismo no Espírito é o único meio de obter esse fervor e essa sóbria embriaguez do Espírito? Não bastam os meios comuns da graça — os sacramentos, a palavra de Deus? Com certeza, mas devemos estar atentos para não cair no mesmo erro dos escribas e dos fariseus. Eles diziam a Jesus: Há seis dias na semana para trabalhar; por que curas no sábado? Seria estranho que, sem perceber, che¬gássemos também nós a dizer a Jesus: Há sete sacramentos com os quais opera e santifica as pessoas; por que agir desse modo desco¬nhecido? A Igreja superou essa mentalidade quando em Lumen Gentium 12 incluiu a conhecida declaração:
"O Espírito Santo não só santifica; e dirige o Povo de Deus mediante os sacramentos, como também dis¬tribui graças especiais entre os fiéis de qualquer condição, distribuindo a cada um, de acordo com sua vontade, seus dons". Afirmou-se dessa maneira que há duas direções a partir das quais sopra o Espírito:

A partir do alto, através das vias institucionais e hierárquicas, e a partir de baixo, por assim dizer, de todo o corpo, com os dons que ele suscita livremente quando e onde quer.
Mas não gostaria de ser eu mesmo a limitar a liberdade do Espí¬rito, justamente quando procuro defendê-la. Portanto, respondo à pergunta que nos propusemos antes do seguinte modo: se por "batismo no Espírito" entendemos certo rito, realizado de determinada forma, em certo contexto e com certas conotações, não, sequer esse é o único meio de ter a experiência de Pentecostes hoje. Houve e há cristãos que tiveram a experiência de Deus, da visita forte do Espírito, sem saber o que é o batismo no Espírito.

Contudo, o batismo no Espírito revelou-se um poderoso meio de reavivar a vida espiritual de milhões de pessoas, uma autêntica "corrente de graça", como apreciava defini-lo o cardeal Suenens. Teremos, portanto, de pensar bem antes de chegar à conclusão de que não serve para nós ou de que podemos deixá-lo de lado. Eu estava a ponto de ser um desses e por isso gostaria de contar brevemente a minha experiência. Faço-o também por crer que já me formulei todas as objeções que costumam deter os sacerdotes a abrir-se a essa realidade.
Creio que minha pobre experiência poderia ajudar alguém, senão a outra coisa, pelo menos a não cometer os mesmos erros.

Sou um sacerdote capuchinho. Até a alguns anos, era professor de História das Origens Cristãs e Diretor do Departamento de Ciências Religiosas da Universidade Católica do Sagrado Coração de Milão. Tratava-se de um serviço bom para a Igreja e para a pesquisa – pelo menos assim me asseguravam os meus superiores. Eu, todavia não estava satisfeito e sentia vagamente a necessidade de uma mudança radical. Jesus queria ter uma participação maior em minha vida; não lhe bastava "aquele conhecimento impessoal", do qual já lhes falei antes. Mas eu sentia, ao mesmo tempo, que nunca teria a força para realizar uma mudança desse tipo.

Em 1974, comecei a ouvir falar da Renovação Carismática; eu disse à pessoa que me falou que não fosse mais àquele lugar. Depois me aproximei um pouco mais dessa realidade, especialmente porque as pessoas, em lugar de ofender-se com as minhas críticas, pareciam amar-me então ainda mais e me exortavam a dar-lhes ensinamentos. Algumas coisas que eu via me fascinavam, porque, com base na minha especialização, reconhecia sem dificuldade que eram idênticas às que ocorriam nas primeiras comunidades cristãs. Já outras coisas (falar em línguas, profetizar) me incomodavam, e eu as recusava.

Por fim, em 1977, uma pessoa de Milão ofereceu alguns convites para ir aos Estados Unidos participar de uma grande reunião carismática ecumênica em Kansas City. E eu, que na época precisava ir aos Estados Unidos, aceitei um. Aquilo que eu via em Kansas City era claramente uma profecia para a Igreja. Quarenta mil cristãos — a metade formada por católicos, a outra, por pessoas de outras confissões — reunidos à tarde no estádio para orar juntos e escutar a palavra de Deus. Certa tarde houve uma profecia. Dizia: "Chorai, lamentai-vos, porque o corpo do meu Filho está destroçado! Vós, leigos, vós, sacerdotes, vós, bispos: chorai e lamentai-vos porque o corpo do meu Filho está destroçado!" Um depois do outro, todos no estádio caíram de joelhos soluçando, e isso acontecia enquanto uma mensagem luminosa se projetava contra o céu escuro em toda a extensão do estádio: "JESUS IS LORD!" "JESUS É O SENHOR!" Parecia uma profecia da Igreja do futuro, a Igreja que todos esperamos, onde os fiéis se reúnam no arrependimento, sob o domínio soberano de Cristo.

E, imaginem vocês, tudo isso não bastou. Eu continuava observando todas essas coisas de fora, dizendo dentro de mim: isto sim, isto não. Uma palavra de Jesus ainda continuava ressoando em meu coração, e eu não conseguia afastá-la da mente: "Ditosos os olhos que vêm o que vedes; ditosos os ouvidos que escutam o que escutais!" Cantava-se uma vez o canto que narra a história de Jericó que cai, com o estribilho que repetia: Jerico must fall, Jericó deve cair. Os companhei­ros que tinham viajado comigo da Itália cutucavam-me dizendo: "Es­cute bem, porque você é Jericó!"

De Kansas City fomos a uma comunidade carismática de Nova Jersey onde ocorria uma semana de retiro sobre a Trindade. Eu procu­rava separar-me do grupo para ir ao meu convento de capuchinhos. Mas um sacerdote muito caridoso insistia comigo: fique mais esta se­mana conosco. Lembro que no final eu disse a mim mesmo: "Mas esta não é uma casa de perdição, é uma casa de retiros; certamente não me fará mal ficar. Pois bem, fico!" Era isso o que o Senhor queria. (É comovedor ver como se contenta com pouco.)

E aqui se situaram as objeções das quais falei antes, objeções que tive de superar uma a uma. Dizia-me a mim mesmo: mas se sou filho de São Francisco, possuo uma magnífica espiritualidade, tantos san­tos... O que estou buscando entre estes irmãos, o que eles podem me oferecer de novo? Enquanto ponderava dessa maneira, no fundo da sala (era um encontro de oração) uma irmã abriu a Bíblia e começou a ler. E qual era a leitura? A passagem em que João Batista diz aos fariseus: "Não digais em vosso coração: somos filhos de Abraão, somos filhos de Abraão!" Entendi que se dirigia a mim e mudei minha oraição ao Senhor. Passei a dizer: Senhor, não digo mais que sou filho de São Francisco, mas peço-te que me faças com o teu Espírito realmente filho de São Francisco, porque até agora não o fui.

Mas nem tudo terminava aí (eu disse a vocês que me defendi com todas as forças). Mas se eu — dizia-me a mim mesmo — sou um sacerdote ordenado pelo bispo, recebi o Espírito Santo. Por que devo ajoelhar-me diante dos irmãos, inclusive leigos, e aceitar que orem por mim? Dessa vez, a resposta chegou a mim diretamente, com uma simples reflexão teológica. Pareceu-me ouvir a própria voz de Jesus falando-me: "E eu então? Vindo ao mundo, não tinha sido consagrado pelo próprio Pai? Acaso não possuía eu a plenitude do Espírito desde a minha encarnação? E, não obstante, aceitei ser batizado porJoão Batista— que também era um leigo! —, e o Pai me deu uma nova plenitude de Espírito para a minha missão, por vós". Então eu disse como Jó: Falei uma vez, e não o repetirei. Ponho a mão sobre a boca. Batiza-me, Senhor, com o teu Espírito...

Enquanto me preparava para receber o batismo no Espírito com uma boa confissão geral, recordando toda a minha vida, eu me via como um cocheiro que, com as rédeas na mão, tinha tentado dirigir a carroça como queria: às vezes lento, outras vezes veloz, agora à direita, depois à esquerda. Mas sem resultado. Nesse momento, foi como se Jesus se sentasse junto a mim (não pensem em nada de extraordinário, visões ou coisas parecidas; eram como simples flashs, imagens interiores bastante comuns) e me dissesse: “Queres dar-me as rédeas da tua Vida?"
Muitos dos que tiveram a experiência do batismo no Espírito ressaltam este fato: o que decide tudo é um ato total de abandono à vontade de Deus, um render-se e entregar-se a ele sem reservas, dar-Ihe as rédeas da nossa vida. Um dos que participaram do primeiro retiro carismático em 1967 resume assim o acontecimento: "Nós nos entregamos completamente a Jesus, e Jesus nos entregou o seu Espírito".

Durante a oração dos irmãos pela efusão do Espírito, no momento em que me exortavam a escolher de novo Jesus como Senhor da minha vida, recordo que ergui os olhos, que foram pousar no crucifixo que estava sobre o altar. Era como se ele esperasse o meu olhar para dizer-me: Atenção, não te enganes, Raniero, este é o Jesus que escolhes como teu Senhor, não outro, não um Jesus fácil ou cor-de-rosa. Compreendi que a Renovação no Espírito é uma coisa diferente de um acontecimento formado de emoções ou de entusiasmos superficiais; ela leva diretamente ao cerne do Evangelho.

Não ocorreu nada de espetacular. Só que, uma vez chegando ao convento ao qual fora destinado, percebi que algo estava mudando: minha oração. De regresso à Itália, vocês podem imaginar a felicidade dos irmãos. Eles diziam: Enviamos à América Saulo e nos devolveram Paulo!
Depois de pouco tempo, teve lugar o fato que mudou a minha vida e que atribuo à graça do batismo no Espírito. Um dia, enquanto estava orando em meu quarto, tive outra daquelas imagens interiores, possíveis sugeridas pelo versículo bíblico sobre o qual estava refletindo. Era como se Jesus passasse diante de mim com a mesma atitude que tinha quando, regressando do Jordão, se dispunha a dar início à sua pregação. Ele dizia: “Se queres vir ajudar-me a proclamar o reino de Deus, deixa tudo e vem!" (Vocês já sabem, portanto, de onde se originou este retiro e por que é tão especial para mim esse momento da vida de Cristo.) "Deixa tudo" significava: o ensino na universidade, tudo o que fizeste até agora. Por um momento, tive medo de não estar preparado, porque aquele Jesus parecia decidido e tinha pressa; exortava mas não se detinha.
Mas percebi que em meu coração havia já um sim pacífico, seguro, posto ali — estou persuadido disso — pela graça de Deus. Levantei-me como um homem diferente do que aquele que começara a orar. Dirigi-me ao meu superior geral para comunicar-lhe a minha inspiração, e foi nesse momento que descobri que grande dom é para nós, os católicos, e para nós, os religiosos e sacerdotes, o fato de ter uma autoridade, o fato de possuir esses representantes de Deus na terra. Só assim pude estar certo de que se tratava realmente da vontade de Deus, e não de uma suposta inspiração minha. Meu superior me disse que esperasse um ano; passado este, concordou ser de fato um chamado de Deus e me deu sua bênção para eu começar a ser pregador itinerante do Evangelho, à feição de São Francisco de Assis.

Ainda não se tinham passado três meses quando chegou a mim, de Roma, a notícia de que o Papa me nomeara Pregador da Casa Pontifícia, cargo que ocupo há 12 anos. Para dizer a verdade, é ele, o Santo Padre, quem me prega a mim, com sua humildade, encontrando o tempo necessário, todas as sextas-feiras pela manhã, no Advento e na Quaresma, para vir escutar a palavra de um simples sacerdote da Igreja.

Foi assim que desejei, tal como São Paulo, "dar testemunho da graça de Deus", porque é certo ser tudo pura graça de Deus. Eu fiz para que, assim, minhas graças subam a Deus, multiplicadas pelas graças de todos vocês. Chegamos então ao final do nosso retiro. Quero compartilhar com vocês uma recordação pessoal, uma última palavra de Deus. No dia em que meu superior geral me deu permissão para abandonar o ensino universitário e dedicar-me em tempo integral à pregação do reino, havia, no ofício de leitura, uma passagem do profeta Ageu. Deus disse ao sumo sacerdote e a todo o povo quando estes começaram a reconstruir o templo: "Mas agora tem ânimo, Zorobabel, oráculo de lahweh; ânimo, Josué, filho de Josedec, sumo sacerdote, ânimo, povo toda da terra, oráculo de lahweh! Trabalhai, porque eu estou convosco... e entre vós permanece o meu Espírito!" (Ag 2,4-5)

Era um chuvoso dia de outono, e a Praça de São Pedro, para onde eu fora a fim de orar ao Apóstolo, estava deserta. Senti de repente o impulso de levantar os olhos para a janela do Santo Padre e comecei a dizer alto (não havia ninguém por perto): "Ânimo, João Paulo II, sumo sacerdote, ânimo, povo todo da terra, e trabalhai, porque — diz o Senhor — eu estou convosco!"
Mas nem tudo terminou aí. Três meses depois, como eu disse, fui nomeado Pregador da Casa Pontifícia e quando me encontrei pela primeira vez na presença do Papa, não pude senão recordar aquele acontecimento. Compartilhei-o com todos e repeti as palavras ditas. Desde aquele dia, tenho repetido com freqüência as palavras do profeta, em minhas viagens pelo mundo, sobretudo quando tenho de falar a sacerdotes ou a bispos. Tenho hoje a felicidade de dizê-las aqui a vocês: "Ânimo, bispos da América Latina, ânimo, sacerdotes, ânimo, povo todo desta terra, e trabalhai, porque eu estou convosco, disse o Senhor. Meu Espírito está convosco!"

Um comentário:

Antonio Alexandre disse...

Isso é obra do Senhor, um mulagre aos nossos olhos!